Carta de Natal
(Legenda): (Maaaaaaaannnnhhhhhêêêêê!).
Prezado Senhor,
E mais uma vez o Natal chega e todo ano eu peço a mesma coisa: cabelos. Cada vez mais, esse pedido se mostra menos concreto. Imagino que Cristo, o homenageado da data, não tenha essa preocupação capilar. Diz que daqui a 33 anos ele será cabeludo e barbudo. Pois eu estou próximo ao terceiro ano da minha terceira década de vida e pouco tenho de barba e capilaridade. O argumento de que ele chegará ao período balzaquiano crucificado é totalmente descartável. Não pedi para que ele morresse em meu nome, apenas que me concedesse um topete vistoso. Como isso não ocorreu, ficamos empatados, com a exceção de que este cidadão renasce anualmente e eu só envelheço.
É sobre o tempo que lhe chamo atenção. Como se sabe, essa medida construída pelo Senhor é uma desconstrução física que só faz mágoa, principalmente quando se trata do Natal. Fiz uma contagem rápida da lista de presentes que pedi nos últimos anos e não fui agraciado. Coisa traumatizante, isso de ser calado e reprimido. Minha opinião é a da existência de um complô contra quem quer uma girafa no feriado mais santo da Igreja Católica. Ou um gorila malabarista. Ou uma Harley-Davidson com uma mulher barbada. Em nenhum momento tive condutas questionáveis, daquelas que me impediriam de ganhar estes presentes. Cristo e Papai Noel estão aí em cima, de olho em mim e, em risadas, olham a lista de coisas pedidas. Gargalham e dizem não.
Por isso imagino que Freud deva estar no inferno. A afirmação de que o desejo reprimido causa problemas é antiga e teve origem nele, o bom austríaco. Tenho certeza de que o pai da psicanálise negaria toda possibilidade do conflito psicológico intenso e manifestaria sua bondade ao conceder presentes que fazem a alegria de todos. Eu particularmente sempre quis ter um amigo com cabeça de antílope. Apesar do conhecimento de certos colegas traídos, este desejo não passa nem perto da minha insatisfação diante do argumento de que a natureza não produziu estes seres em tempo hábil na escala evolucionária. Pois se Darwin comprovou a sobrevivência e adaptação do mais forte, porque não haveria de existir uma espécie de cornos altamente evoluídos? E por que eu, aos dez anos de idade, não poderia ter um em casa para jogar Nintendo?
A afirmativa de que os valores econômicos e genéticos impediriam a realização destes pedidos é absurda. Todos sabem que Papai Noel é filantropo multibilionário, graças a inúmeras jogadas especulativas de sucesso nos anos 20 do século passado. Iniciativas que lhe passaram em branco e que, infelizmente, causaram a quebra de alguns países. Jesus, como Seu filho, tem capacidades infinitas. Há rumores infundados de que ambos não existam, afirmação de causar risos, graças as inúmeras comprovações em áudio e vídeo. Basta ver as propagandas de M&Ms e aquele livro escrito pelos 12 assessores de imagem contratados pelo Senhor, que contam em detalhes várias histórias interessantes, mas um pouco desgastadas, de milagres e ceias regadas à pão e vinho.
Minha proposta é de renovação total. Se minha opinião for de alguma valia, sugiro que Freud assuma o cargo e a alcunha de Bom Sig e faça a análise e distribuição dos brinquedos. Apesar desta medida causar um impacto significativo nas receitas da indústria farmacêutica, já que o mundo será muito mais feliz, garanto que a expectativa de vida de Seus fiéis aumentará consideravelmente, o que implicará em dízimos de longo prazo.
Certo de meu apelo fará eco em seus ouvidos milenares, fico à disposição para um troca de ideias e esclarecimentos.
Cordialmente,
Ivan Scarpelli
PS: Imagino que o Senhor saiba o motivo, mas peço que não me pergunte diretamente sobre os motivos que me levaram a pedir por uma mulher barbada.
Bloqueio criativo

Chiados
Meu pai era uma cara com discos. Muitos discos, tantos que para quem tinha uns 10 anos, aquilo tudo era algo sem fim. Eu costumava olhar para o alto da estante, esticar a mão, veja só, para tentar alcançar a última prateleira de vinis. Por problemas hormonais, tenho a impressão que só consegui fazer isso com cerca de 13 anos. E ainda com o auxílio de uma cadeira. Mas também não posso culpar a genética, não posso culpar o que meu pai e minha mãe fizeram entre si, porque eventualmente isso me pôs no mundo. Porque, no final, os dois são baixinhos e na média eu me saí bem quando o assunto é altura.
Mas eu não fiquei tão alto quanto aqueles discos, nem tão alto quanto o volume das músicas que eu escutava com o meu pai. E também não me tornei um cara tão forte, como eram os meninos que jogavam futebol na escola. Eu não era, ainda, particularmente brilhante como os outros que faziam chover fórmulas na aula de química e, eventualmente, provocavam explosões nos corredores. Pra ser sincero, gostava de ver coisas irem para o ar, mas nunca tomei parte nisso. Bem queria, mas nunca fui chamado pra isso. Em contrapartida, nunca fui incomodado. Eu era, como ainda sou, um cara normal. Tinha até uma namorada, que eventualmente me trocou por um outro cara mais alto. O nome dele era Saulo e eu vi os dois se beijarem na minha frente várias e várias vezes. A primeira vez, em particular, foi um dia depois que ela me dispensou. Eu gostava mesmo dela, não tinha nada contra o Saulo – mas aprendi a ter depois disso. Minha opinião na época é a de que se alguém tem um nome inspirado em uma pessoa que diz ter escutado Jesus, essa pessoa não regula muito bem. Ainda hoje concordo com essa posição e acrescento uma explicação plausível para quem ouve vozes: ela sofre de esquizofrenia.
Assim como Jesus, eu tinha cabelos, cabelos compridos. Não era divino, claro, nem andava pelas águas, apesar de ter tido algumas experiências com drogas na época que me levaram a crer que isso até seria possível. Não tinha cabelos enormes, como um desses caras que gostavam de heavy metal, mas era assim que eu (achava, pelo menos) podia ser diferente dos outros. De qualquer forma, o que eu curtia eram os ingleses da época. Gostava do que chamaram de britpop e via muita semelhança entre 0 13, do Blur, com discos do Pink Floyd. Meu pai concordava e gostava. Meu pai era também um adolescente de quase 50 anos, com experiência em música. Ele sabia prever todos os singles das bandas novas e o quanto as músicas fariam sucesso. Ele não achava que o 13 faria muito sucesso, mas sabia que o álbum era bom. Ele sabia que o Hurricane #1 não teria muito futuro e deixava isso claro. E foi preciso nisso.
Quando o Radiohead lançou o OK Computer, em 1997, ele não entendeu o que era aquilo. Então a gente meio que se separou ali. Porque havia coisas que não poderiam ser mais compartilhadas entre nós. Ele gostava de Emerson, Lake & Palmer. Eu tinha 16 anos e todo o mundo ao meu redor, fora a vontade de nunca mais ver o Saulo na minha frente. Eu fui trocado por um sujeito mais alto e ela, a minha ex-namorada, engravidou dele àquela altura. Diz que o menino que nasceu é alto pra idade, pra minha insatisfação. Enquanto isso, meu pai sentava e fumava cigarros e eu estava decidido a descobrir outras coisas. Era uma lógica de Alice no País das Maravilhas, quase estoica: eu não sabia para onde ir, portanto, qualquer caminho me levaria até lá. E quando saí da minha cidade e fui para outra, meu velho começou a ficar surdo. As palavras dele começaram a ficar mais altas do que a estante de vinis. Eu já não podia alcançá-las mais, mesmo com um banquinho. Lá do alto, o efeito era o contrário do esperado: elas ficaram rarefeitas.
Eu ainda não compreendi a lógica do sentido entre nós. Da parte dele, pode ser que o meu velho ainda procure entender o que aquele disco tinha de tão interessante. Ou talvez só queira ouvir a si mesmo. Ou pode ser que ele não queira ouvir mais nada. Ele fez 61 anos e não nos falamos desde que os vinis saíram da sala e foram para um depósito no fundo da casa. Quanto a mim, não tenho respostas. Tenho só um voto que não cumpri esse ano e que quero abrir aqui: os parabéns ao meu pai por outro aniversário em que estivemos ausentes um do outro.
O triângulo impossível
(Legenda): (“Então, basicamente, o que preciso fazer é deixar o cara um pouco confuso e pronto”)
E se meu lado feminino fosse, de repente, a Sasha Grey. Sasha Grey, a atriz pornô. E o masculino, Sergei Rachmaninoff. Ele mesmo, o maestro. Prevejo conflitos, porque, em primeiro lugar, o que conta aqui é o meu desejo em ser um homem de respeito. Eu sou um cara conservador, em essência. O ponto é: quero chegar aos 60 anos e fazer piadas com o cachimbo que eu comprarei aos 50. Quem me perguntar o motivo de um vício tão horrível, ouvirá como resposta: “isso não é um cachimbo”. Piadas intelectualizadas: só pessoas com experiência, elegância e respeitabilidade podem fazer. Advogados em geral estão mais aptos em exercê-las. Outras profissões menos nobres, como designers e desenhistas industriais, não. Os designers e desenhistas industriais projetam cadeiras para advogados, daí que se conclui o lugar de cada um no mundo.
Nada disso seria possível com uma atriz pornô como minha anima, no jargão junguiano. O meu lado feminino agiria de maneira muito agressiva sobre mim, e eu não conseguiria lidar com tal pressão. Iriam me chamar de mulherzinha. Eu, com o Sergei Rachmaninoff na escalação do meu inconsciente, não poderia ser tratado dessa forma. O ponto seria descobrir como reagir frente a uma ameaça feminina de quase um metro e setenta e mais de 135 filmes realizados nas mais estranhas posições. O máximo de audácia que o meu lado masculino teria seria o casamento com uma prima, o que lhe causou alguns problemas com a Igreja Ortodoxa em vida. Isso, comparado a mulheres que vão para cama em posições anti-naturais, é nada. Já foi dito há muito tempo pelo clero que o bom mesmo é ir para a cama com um lençol recortado na região pélvica e, daí por diante, realizar o que deve ser realizado. Na dúvida - e também na ausência de uma tesoura para peças de cama intactas - o melhor é desligar a luz, rezar um pai- nosso e dormir. Todo homem de valor faria isso, mas não um com um inconsciente maniqueísta cujo outro lado é uma tarada. Em resumo, por causa desse dilema poderia muito bem passear um dia no zoológico e sentir vontade de me agarrar com duas mães solteiras e um pinguim pacífico dando sopa por ali. Tenho cá para mim que o pouco de dignidade que me restaria disso tudo seria o fato de ter atacado mulheres que, mesmo desquitadas, estariam ainda aptas às relações sociais. Por outro lado, quebraria a experiência de fidelidade do pinguim, que escolhe uma parceira e a mantém durante toda sua vida. E sem dignidade, não poderia comprar meu cachimbo aos 50 anos sem pensar em temas como fixação oral e culpabilidade. Porque, claro, todos sabem o mal causado pelo fumo. E sobre a culpa, posso comentar mais um pouco. É só pensar no auto-bullying. É muito provável que por conta da presença masculina enfraquecida, Sasha Grey começasse a manipular meu corpo de forma lenta, a tal ponto que um dia eu acordasse e me desse conta que não haveria mais um pênis no meu corpo. É evidente que muito antes disso eu já teria assumido que a melhor forma de se ir ao banheiro seria a de sentar ao vaso sanitário, independente da necessidade. O lado feminino, sem dúvida, anularia minha virilidade conservadora em prol de um modelo mais liberal. Ironicamente, Sergei Rachmaninoff ficaria preso a seu passado de glórias musicais e não me ajudaria em nada, enquanto a atriz pornô em mim promoveria concursos de garotas da camiseta molhada ao som do Concerto para Piano número 3. Essa é a forma do inconsciente demonstrar gratidão pela escolha de uma sombra feminina tão expressiva.
Personalidade, infelizmente, não se compra em supermercados, muito menos em antiquários, se alguém eventualmente considerasse adquirir uma de segunda mão com lados masculinos e femininos já meio gastos. Não seria má ideia, por outro lado, escolher esse tipo de coisa. Com o aumento de consumo da população e a abundância de crédito no mercado, muitas empresas faturariam alto com isso. Verdade que a pirataria seria comum, com kit-almas de procedência demoníaca, por exemplo. Compre um e libere o Belzebu em você. Também não dá para garantir a emissão de certificados InMetro no teste do inconsciente, apesar de desconfiar que isso ocorre por conta de um conchavo entre eles e a indústria de antidepressivos. E, claro, ainda não foi criada a Delegacia do Bem Estar Psicológico, voltada para o registro de crimes contra a natureza psíquica. Por isso o mundo precisa mais de advogados e menos desenhistas industriais. O mundo já está cheio de cadeiras. Agora, se um dia precisar reaver meu pênis, seria bom ter um representante da lei ao meu lado. Infelizmente, teria que processar a Sasha Grey, ou seja, a mim mesmo, e perder uma grana com isso. Fora a possibilidade de ter que pagar indenização, que também sairia do meu bolso. Com tudo tão fora de controle, a última alternativa seria aceitar os convites recebidos para estrelar produções pornográficas. Veja como a vida seria irônica. E eu sou um homem de família e conservador, acima de tudo. Bom, talvez se a produção fosse de bom gosto. Quem é que sabe.
Providência Divina
(Legenda): (Jesus!)
Em frente de casa há uma igreja. Não tenho nada contra igrejas, nem contra religiões. Acho que, pelo contrário, faz bem ao homem ter uma válvula de escape para suas angústias. Se Deus não existisse, já teríamos nos matado em algum ponto lá na Antiguidade Clássica. E até o Bob Dylan já foi católico. Ok, vão dizer que falo demais do Bob Dylan, mas fazer o quê. O homem lançou lá seus discos com uma perspectiva sobre o tema e não dá pra desprezar isso.
Mas o ponto é a igreja perto de casa.
Como toda igreja, ela é composta por um líder religioso e um monte de fiéis, todos ali unidos com o objetivo de celebrar a Deus. Meu problema é como isso ocorre. Todas as quartas, sábados e domingos o culto aqui do lado traz uma banda. O som não é dos melhores e a cantora não é afinada. E há também o discurso do pastor. Ele, que mal é notado no bairro durante os outros dias, se exacerba, talvez iluminado pelo som que toma o ambiente, e berra para Jesus. Corrijo: o pastor urra para Jesus e a audiência se anima, mesmo com a banda ruim e a cantora desafinada. Daí que temos como resultado uma barulheira dos infernos e um pastor com o capeta no corpo. O que prova, de maneira consistente, algumas coisas. A primeira é que espionagem industrial, de forma geral, é uma prática disseminada desde o Velho Testamento. E a segunda é que ninguém presta atenção nesse fato e continua a frequentar os cultos. Há na sociedade um medo secular e disseminado de que o Capeta apareça, mas ninguém nota que o dito cujo já está ali, no meio de nós. Corrijo de novo: pelo menos, no meu caso, ao lado de casa.
Não acho que existam problemas com a presença do Tinhoso na sociedade. Na verdade, o Demônio é superestimado e aparentemente mal orientado, ao menos do ponto de vista da comunicação empresarial. Jesus Cristo, por ter um pai influente, contou com 12 assessores de imprensa. Deste batalhão, só um provou-se incompetente. Ao Cramulhão, restou o Toninho do Diabo como referência na Terra. Não é uma equação justa. E, claro, além de influente, Deus é milionário: você nunca escuta alguém dizer que “aquele dinheirinho chegou na hora certa, graças ao Coisa Ruim”.
Mas a igreja está aqui, presente, e a equação entre o bem e o mal se mantém firme, segundo os cientistas da matéria ou da não matéria. Cientistas que poderiam provar o tal poder da oração, propagado em múltiplas crenças. Enquanto isso não acontece, afirmo meu medo frente às orações. Imagino a minha mãe em pedidos constantes de uma vida regrada e correta ao filho. Uma mãe católica que pede por uma boa moça para mim, que siga à risca os preceitos de Deus – e que me dê o desprazer do ato sexual com fins reprodutivos, uma vez ao ano. Max Weber, de onde estiver, aplaudiria ou seria beatificado pela minha santa mãezinha, que de santa não tem nada. Afinal, não estou aqui por geração espontânea. Correção, mais uma vez: não se fala mal da mãe, que é pecado. Perdão.
De qualquer forma, se orações realmente forem eficientes, proponho aos leitores que considerem a possibilidade de me incluírem em suas conversas com seus superiores espirituais. A ideia é a de eliminar de vez o barulho da igreja ao lado de casa, com talvez algum voto de silêncio por parte do pastor e dos fiéis. E, por último, pensei aqui na possibilidade de montar um combo-oração: a cada dez pais-nossos e quinze ave-marias, eu ganho um kit Olivia Wilde. Kit que consiste basicamente na presença da Oliva Wilde em casa, apropriadamente vestida em um hábito para o exercício de atos religiosos.
Cada Dentinho tem a Mulher Samambaia que merece. Oremos, pois, para um mundo melhor.
Ah, todas as ótimas recordações
(Legenda): (Ele dança em memória aos tempos em que tudo era analógico e em 2D)
E o personagem tem 30 anos hoje, o que significa que: em 50 anos, ele será um velho. Um velho indie. Aquele que passou a vida toda em busca de alguma razão de viver na música alternativa. Seja lá o que fosse isso. Ele nunca aprendeu a tocar um instrumento musical sequer. Tentou uma vez o sintetizador, é verdade, quando em 2023 houve o retorno das calças amarelas e dos bigodes. Não deu certo, porque nessa época já tinha barriga, bastante barriga, e os reflexos não eram os mesmos de 20 anos antes. Poderia ter produzido bandas ou dado festas, mas sentia-se um nível abaixo dos outros – só porque era estabanado e não se dava bem nem no air guitar. Mas o velho indie sabia de cor um monte de bandas e um monte de músicas. Um monte.
O velho indie, quando não era velho, se casou com uma designer. Uma designer com piercing no lábio inferior e alargadores nas orelhas. Aquilo que mais atraía o indie de então 35 anos não era isso, mas sim o corte de cabelo dela e uma tatuagem de bichinho no braço esquerdo. O velho indie manteve consigo o gosto por bichinhos, ainda que isso fosse segredo desde a juventude: ele sempre quis uma tatuagem dessas, mas acabou contente com outra, a primeira de 16 (uma pin up cercada de dois passarinhos, estilo old school). Verdade seja dita: ele se não casou com a designer. Primeiro moraram juntos em um apartamento na Frei Caneca, quase ali, no final da Augusta. Depois, quando o tempo passou, isso em 2033, foram para o altar. Não propriamente o altar, mas um culto, um batismo e uma consagração. Nessa época ela tinha ingressado numa seita que acreditava em alienígenas e que exigia casamento. Os ETs são muito conservadores com relação a quem eles levarão para o outro plano, foi o que disseram. Em 2050, eles ainda não vieram. Mas um dias eles virão. Um dia eles virão.
O personagem de 30 anos, que nos próximos 50 terá 80 (e que agora está bem próximo disso) tinha uma dúvida quanto aos extra-terrestres, que a esposa nunca soube responder: ele poderia levar a coleção de vinis para outro lugar? Porque o velho indie colecionava discos desde os 18 anos e isso significa que eram muitas as bolachas que tinha guardadas. Ele não aceitava a possibilidade de converter tudo em um servidor tradicional, mesmo nos antiquados – qualquer aplicativo de cloud computing que fosse. Influência do pai, que também era colecionador. Ser vintage ainda era moda, mas o velho indie já não estava mais na moda. Usava all star ortopédico e gostava de suas músicas porque era genuinamente assim. Pensou até fazer uma tatuagem para refletir esse momento de maturidade, mas depois do último surto de Hepatite K que devastou metade da população de São Paulo em 2054, achou melhor se manter longe de agulhas.
Ele parou de escutar bandas novas em 2072, quando o último integrante vivo do The Vaccines lançou seu disco solo e se jogou da janela do sétimo andar do centro de reabilitação para idosos em Miami. Ou teria sido o último integrante vivo do The Drums, que lançou um disco tributo ao Kasabian e teve uma overdose definitiva? Para tirar a dúvida, não adiantava perguntar para a velha, que um dia foi jovem e também indie, mas que agora só tinha uma franja torta e laranja com uma orelha murcha: ela havia perdido a audição numa rave no Cemitério da Consolação. Uma rave em celebração aos 50 anos dos Chemical Brothers. O médico disse não. Ela disse sim. Ela não ouviu mais nada desde então, mas foi uma atitude super rock n’ roll.
O velho indie ponderou um pouco e achou que no final se tratava de uma festa rock n’roll em comemoração aos 45 anos da morte do Pete Doherty, com abertura da Cachorro Grande, Beto Bruno na cadeira de rodas, mas ainda cantando bem. E que talvez quem não escutasse mais as coisas era ele. Pressionou duas vezes o polegar no indicativo até que a tela de opções aparecesse no ar. Deu a ordem de colocar um disco do Coldplay: ouviu perfeitamente e ficou aliviado em saber que o tempo o talhou paraa ficar firme e apto a escutar até mesmo as coisas mais horríveis. Se recompôs e voltou a pensar. All Star ortopédico, essa sim tinha sido uma boa sacada. Isso e quando ele escreveu em sites especializados de música, em 2042. Porque o velho indie, que na época era um tio indie, sabia de um monte de bandas e músicas. E fazia resenhas e ganhava cds de graça, que exigiu com o tempo que fossem vinis. Parou em algum momento de desgosto, quando descobriu que existiam mais bandas de cartoons do que propriamente bandas de verdade. Aos 80 anos, o velho indie, o personagem que hoje tem 30, prefere ouvir a formação clássica do Oasis, com Jim Reid e William Reid juntos em Bitter Sweet Symphony. Os Beach Boys, uma banda que não era do seu tempo e do tempo de mais ninguém: era bom quando ele ouvia seus discos mais clássicos, como o Their Satanic Majestic Request. E os Doves com Lippy Kids, uma canção reconhecidamente negligenciada de 2013.
O velho indie se orgulhava de sua cabeça boa e do que contruiu na vida. Não teve filhos, mas os dez gatos lhe bastaram. E teve ao seu lado – ele hoje ainda não sabe disso, o indie de 30 anos – a mulher que sempre quis. Pensou que definitivamente deveria se arriscar e tatuar (“a memória nunca morre”) no último pedaço da batata perna que sobrou. Dizem que as aplicações de tatuagem são feitas em scanner e o perigo de doenças passou.
Antes de jantar, ele teve um último pensamento: a festa no Cemitério da Consolação foi pelos 40 anos da morte do Arnaldo Baptista. Ele se lembra de ter tirado uma foto ao lado do túmulo dele. E a última banda nova que ouviu se chamava Belle & Sebastian. Bons tempos, aqueles.
Barragens
(Legenda): (É bastante provável que a gente te ajude a superar esse momento de dor)
Cenário: da sua mesa, o cronista com bloqueio criativo força a redação de um texto que precisa entregar:
E as cartas-resposta se tornaram raras, tanto que há quem não se lembre delas, ou até mesmo saiba qual a função que um dia elas exerceram. As cartas-resposta foram importantes em época de ábuns da Copa do Mundo, por exemplo. Qualquer um poderia encaminhar pedidos de figurinhas para a editora. Não ter o time completo do Brasil por causa da ausência do Romário era solucionado dessa forma: o menino marcava uma tabelinha com os cromos que faltavam (incluindo o do atacante da Seleção Brasileira) e mandava o pedido por meio dessa carta-resposta. O pai normalmente pagava. Pagamento registrado, mas o selo era gratuito: carta-resposta (não é necesário selar).
Muitas pessoas devem ter perdido seus empregos por conta do fim das cartas-resposta (não é necessário selar). Elas foram progressivamente substituídas pelo e-mail, os blogs, o Twitter, o Facebook. Redes sociais, enfim. E acabou-se a principal graça de se encaminhar estas cartas: a ausência de resposta. Ninguém nunca soube com certeza quem estava do outro lado. Era possível imaginar um bando de anões de gorros verde como os responsáveis pelo envio das figurinhas. Um anão para cada time de futebol: um que pegava a figurinha do Toninho Cerezo, empacotava e mandava pra um menino. E assim para o time da Holanda ou da Inglaterra, ou qualquer outro, vá lá. Anão que trabalhava com a seleção argentina ganhava por insalubridade, mas era sacaneado pelos outros. Dito isso, vale registrar: Papai Noel, uma ova. As cartas-resposta eram a prova concreta de que somente os bons meninos recebiam coisas bacanas (porque certos cromos eram extremamente difíceis de se conseguir).
E havia também o silêncio. Se em uma carta tradicional a ausência de respostas era sempre o problema, o contrário era visto como um alívio nas cartas-resposta. Ninguém gostaria de receber uma longa lista de problemas, desejos e felicitações por parte de uma editora que trabalhava na produção de figurinhas do Dunga. Por outro lado, talvez algum solitário escrevesse para estas empresas com a intenção de se sentir melhor. Ou então tarados contassem um ou dois segredos – e estimulassem a vida sexual de um ou dois funcionários (anões de gorros verde ou não) das editoras de figurinhas. Em todos os casos, o silêncio nas relações era o rei. Talvez até fosse a prova de que não eram necessárias palavras para construir um discurso que
(O escritor para por um minuto, revisa o que escreveu e diz: mas que merda. Depois sai para tomar uma cerveja na esquina. É possível que peça fiado, já que as contas este mês vieram altas. Sobre o texto, não se sabe o que foi feito dele).
Megalomania
(Legenda): (Eu sou tudo o que o dicionário de anatomia diz que eu sou)
Penso muito sobre Deus. Busco referências pra explicar quem Ele é.
E penso no Shakespeare essencial: ser ou não ser, eis a questão. O que parece elementar, já que se trata de uma decisão autônoma. Eu sou, ou deixo de ser, se quiser. E assisto filmes do Richard Gere, mesmo sabendo que ele é canastrão. Mas existir ou não existir, essa é uma questão que vai além. Impossível determinar o que há ou não há. Os filmes do Richard Gere existem, mas há uma comprovação física disso. É só ir até a locadora.Deus, por outro lado: Deus eu não sei se existe. Sou eu (se eu quiser) que comprova essa existência, do mesmo jeito que comprovo que os filmes do Richard Gere estão aí. Sou eu e quem mais acreditar nisso.
Mas meu ponto com Deus é: se ele existe, ora, se ele existe, então Ele deve ser nossa imagem e semelhança, porque é o que foi dito a respeito e é o que foi escrito a respeito. Ou sou eu a imagem e semelhança dele. Deus não joga com dados, disse Einstein uma vez; nem eu jogo. O que prova que tanto o Divino quanto eu somos livres de algum vício. E somos também sádicos. Ele pediu pra um dos seus fiéis assassinar um de seus filhos e depois voltou atrás – só pra matar o tédio. Eu mato os outros de irritação – de vez em quando – só pra ter prazer com isso. Talvez isso também indique que somos megalomaníacos. Nenhum psiquiatra provou tal constatação até agora.
Mas vamos colocar desse jeito: projetado pra toda uma variedade de pessoas. Uma gama maior da população. Há quem jogue dados e há quem seja masoquista. Isso deixa as pessoas fora do caminho de Deus, mas talvez não: porque Ele só existe quando referenciado por cada um de nós. Deus pode ser invocado pelos viciados em jogo e pelos masoquistas. É masoquismo pedir ajuda pra Alguém e não obter resposta, por exemplo. Deus não referencia ninguém. Tremendo egoísta, como cada um de nós.
Deus pode ser apenas silencioso, como Greta Garbo. Como ela, Ele fez um tremendo sucesso em algum momento, mas escolheu o isolamento. Que cada um pense o que quiser Dele – e da Greta Garbo, também. “Eu quero ficar só”, teria dito o Salvador. Não há nada original no que a atriz sueca fez no começo dos anos 40 do século passado. Outro chavão: nada se cria, tudo se copia. No caso dos dois, o silêncio aumentou e virou linguagem. Deus e Garbo se manifestam pelo calar. Acharam o corpo dela em 1990. Dele não se sabe nada, mas alguns desconfiam que o Homem se matou há tempos. Deus, o suicida. Se somos filhos do Criador, então quem veio depois do desaparecimento do Senhor já nasceu de alguma forma morto. Pode até ser que Richard Gere seja mesmo um zumbi de sucesso.
Quanto a mim, impossível que seja Deus: não há registros que o Senhor tenha tido asma. Respirar ou não respirar, eis a questão.
Cigarettes & Alcohol
Você pode ver Van Gogh, sabe. Como ele pega uma paisagem e a transforma em algo inusitado. É como em “Trigal ao amanhecer”. Ele corta a tela em duas partes: lá em cima, no canto superior esquerdo, o Sol e as montanhas, uma casa, tudo comum, desenhado em escala. Então há um corte, um muro divide o quadro e na parte de baixo, quase três quartos da imagem, não existem mais padrões. Só uma massa de vegetação que sobe e se projeta à frente. Ondas de flores aparecem na dianteira e, então, só há vertigem.
O que motivou Van Gogh a produzir vertigem em seus trabalhos? Vamos supor que seja a influência sofrida por sua doença – ele não está aqui pra confirmar se essa hipótese faz sentido; mesmo que estivesse, talvez não tivesse essa resposta, ainda que tivesse consciência de sua condição. A suposição mais simples é afirmar : ele produzia a vertigem porque a vivia todos os dias. Era um movimento natural pra ele e não havia necessariamente explicação pra isso.
O que há de natural nas pessoas é o que motiva a criação. No caso de Van Gogh, se havia caos e vertigem dentro de si, então isso seria ao mesmo tempo uma coisa boa e ruim. Quando a alma é grande demais pro corpo, ela se espalha. E, muitas vezes, se perde. O artista produz, mas as custas da própria sanidade.
Esse é um caso extremo. Van Gogh foi um artista único, com uma forma de interação singular no mundo. Toda vez que vejo um de seus trabalhos, lembro dos Beatles. Na verdade, lembro de Strawberry Fields Forever. ”Living is easy with eyes closed” , é o que diz a letra da música. Não acho que seja um alerta ou uma prestação de apoio. É muito mais, parece, uma música de deslocamento e tédio:
Acho que existem semelhanças entre John Lennon, que escreveu Strawberry Fields Forever, e Van Gogh. Ambos usaram da imaginação pra criar algo que demonstrava não necessariamente algo positivo, mas sim, devastador. Vertigem e tédio em palhetas coloridas:
No nosso cotidiano, suponho que a criação esteja baseada na insatisfação. Cada ato voltado para a geração é estabelecido a partir de uma vontade não preenchida – desde a namorada que você não tem até a cura pra sua doença. O que nos mantêm vivos, talvez, seja simplesmente a capacidade de sonhar contra a realidade. Por isso também temos filhos.
No final, toda fantasia é resultado da frustração.








