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Um pequeno ensaio sobre o incômodo

05/05/2012

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(Legenda): (Tudo que é incômodo se adapta no ar – Crédito – Lancia TrendVisions)

F. Scott Fitzgerald dividiria a mesa com o Radiohead. O escritor entendia algo valioso, algo que o Radiohead explora de forma muito natural: a relação entre conforto e pertencimento, nem sempre associada à popularidade, mas sim, ao deslocamento.

Em sua época como escritor em Hollywood, Fitzgerald sentia desconfiança dos executivos da MGM. Tanta desconfiança que estava mais à vontade junto ao elenco de Freaks do que com os chefes. Anões, gêmeas siamesas e pessoas com cabeças em forma de cone lhe pareciam melhor companhia do que os engravatados de cabelo bem penteado para almoçar.

A raiz do interesse de Fitzgerald poderia estar na simples provocação aos executivos que lhe pagavam o salário, ou em uma curiosidade característica das pessoas em geral. O  mórbido atrai mais que o dito comum, talvez mais que o belo.  O deslocamento pode causar sensações de prazer bem mais intensas do que uma relação entre iguais. No século XIX, os circos vitorianos eram cheios em audiência, muito por conta das excentricidades de suas atrações. Julia Pastrana, a mezza soprano, mantinha o corpo coberto de pelos por conta da hipertricose, fato que lhe rendeu fama mundial como a Mulher Macaco. Explorada, morreu de complicações decorrentes do parto. Seu corpo foi empalhado para exposições pelo mundo todo.

O olho paralisado  de Thom Yorke traz um pouco da relação entre talento, arte e coisas esquisitas. Suas letras sobre sardinhas enlatadas e mixomatoses reforçam esta impressão. Mesmo a erudição do grupo fortalece o estigma de ponto fora da curva. Tudo no Radiohead parece ser voltado intencionalmente para o desconforto. É retomada a fisiognomonia do Renascimento, transformada em música. O grupo assume suas composições como estética, como valores morais, e se apresenta como espetáculo. Nada do que é excêntrico foge à eles. Tudo é transformado para a audiência, como seus predecessores vitorianos.

O interesse de Fitzgerald pelos Freaks de Tod Browning destaca a maneira como o escritor atuava em torno do excêntrico. Muito pode ser visto na forma em que ele tratava o tema em seus contos. Em “O curioso caso de Benjamin Button”, o nascimento cronologicamente invertido do protagonista é visto com tentativas de indiferença nervosa por parte de sua família, amigos e esposa.  Perry Parkhurst, outro de seus personagens, é um bêbado enfastiado de festas que interage com as pessoas vestido em uma fantasia de camelo. A ligação entre “Tender is the Night” e “Frankenstein” poder vista como um ponto de reflexão.

É bastante provável que um encontro entre ele e o Radiohead gerasse interesse e, quem sabe, contribuições. Para ambos os lados, “toda a fé do homem” foi “abalada”. Restaria o choque, o consumo e a fama pautada em um quê de desconforto. Uma exploração apropriada aos seus temperamentos semelhantes.  

Taras intelectuais

03/05/2012

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(Legenda): (O Gabinete das Torturas do senhor Leon)

Das coisas que realmente me surpreendem, esta é uma das que se destacam: Leon Tolstói virou um fanático religioso no final da vida. Sempre me perguntei como uma personalidade como a dele se converteu a uma espécie assim deformada do cristianismo. Dizem que o escritor tinha uma versão particular da religião e que trouxe seguidores para ela. Em resumo, Tolstói era um missionário de sua interpretação sobre Jesus Cristo.

Os estudantes de Letras russas, em particular, devem se debruçar muito sobre o tema. Eu não conheço nenhum, mas posso imaginar que deva existir aí alguém que tenha se dedicado ao tema com afinco, ou que atualmente esteja em ritmo de pesquisas sobre o tema. Suponho ainda que estas pessoas vivam em torno deste mito e dele respirem, imersas em livros, cartas etc.

A imagem que faço é a desse rapaz que se mostra agora na frente da namorada, o corpo franzino, nú. E lá está ele, em um esforço para satisfazer. Sem sucesso. Tolstói, pensa, Tolstói pregava a abstinência. Tolstói, pensa além, Tolstói condenaria essa atitude. Tolstói, conclui, jamais tocaria estes peitos de bicos rosados. Tolstói, alias, jamais pronunciaria esta palavra.

Triste pela ineficiência do parceiro, a garota se debruça pronta para a felação. E ai do rapaz, que estudioso e dedicado ao escritor, começa a ver tudo em névoa. Sente tontura, abre os olhos e vê o próprio Leon com a cabeça entre as suas pernas. Nega totalmente a hipótese e espreme as pálpebras. Sente que a namorada está de volta ao seu lugar, cria  coragem e põe o olho direito à prova. Tudo certo, a não ser uma coisa, uma única coisa. Tolstói agora está sentado em uma cadeira ao lado da cama e reprova tudo com veemência. Começa a rezar em russo e pragueja que sua Anna Karenina, por muito menos, se pôs debaixo do trem. Envergonhado e retraído, o pobre estudioso pula da janela do décimo andar.

Não sei se esse seria o melhor final para o dedicado aluno. Imagino que talvez Tolstói devesse tomar parte do ato, ou o rapaz persistir ao ponto em que trocaria seus estudos por Henry Miller. Provavelmente, não. Tara por tara, é sempre melhor ficar com aquela que traz mais culpa: o gosto é melhor.

(Um trecho sobre) uma vida com saúde

16/01/2012

Comprei três litros de leite de soja. A ideia era seguir minha dieta à risca. Por isso, os três litros de soja e nada de carne vermelha. A nutricionista recomendou um tanto assim de peixe e um outro tanto de frango por semana. Mas nada, nada, de churrasco ou bife. Nem álcool. Um monte de verduras e um monte de legumes. E, se tiver fome, gelatina.

Depois dos 30 anos de idade, o metabolismo muda e é mais fácil engordar. Eu estava gordo. Bem mais do que gostaria. Então era preciso pensar mais na saúde e manter a cintura à prova de ataques cardíacos. Melhorar a disposição também, porque  me sentia cansado. Por estar cansado, o trabalho não rendia o esperado. É muito cedo para se estar cansado, quando se tem 30 anos. Há muito pra se trabalhar nesta idade, ainda mais quando existe um

Carta de Natal

16/12/2011


(Legenda): (Maaaaaaaannnnhhhhhêêêêê!).

Prezado Senhor,

E mais uma vez o Natal chega e todo ano eu peço a mesma coisa: cabelos. Cada vez mais, esse pedido se mostra menos concreto. Imagino que Cristo, o homenageado da data, não tenha essa preocupação capilar. Diz que daqui a 33 anos ele será cabeludo e barbudo. Pois eu estou próximo ao terceiro ano da minha terceira década de vida e pouco tenho de barba e capilaridade. O argumento de que ele chegará ao período balzaquiano crucificado é totalmente descartável. Não pedi para que ele morresse em meu nome, apenas que me concedesse um topete vistoso. Como isso não ocorreu, ficamos  empatados, com a exceção de que este cidadão renasce anualmente e eu só envelheço.

É sobre o tempo que lhe chamo atenção. Como se sabe, essa medida construída pelo Senhor é uma desconstrução física que só faz mágoa, principalmente quando se trata do Natal. Fiz uma contagem rápida da lista de presentes que pedi nos últimos anos e não fui agraciado. Coisa traumatizante, isso de ser calado e reprimido. Minha opinião é a da existência de um complô contra quem quer uma girafa no feriado mais santo da Igreja Católica. Ou um gorila malabarista. Ou uma Harley-Davidson com uma mulher barbada. Em nenhum momento tive condutas questionáveis, daquelas que me impediriam de ganhar estes presentes.  Cristo e Papai Noel estão aí em cima, de olho em mim e, em risadas, olham a lista de coisas pedidas. Gargalham e dizem não.

Por isso imagino que Freud deva estar no inferno. A afirmação de que o desejo reprimido causa problemas é antiga e teve origem nele, o bom austríaco. Tenho certeza de que o pai da psicanálise negaria toda possibilidade do conflito psicológico intenso e manifestaria sua bondade ao conceder presentes que fazem a alegria de todos. Eu particularmente sempre quis ter um amigo com cabeça de antílope. Apesar do conhecimento de certos colegas traídos, este desejo não passa nem perto da minha insatisfação diante do argumento de que a natureza não produziu estes seres em tempo hábil na escala evolucionária. Pois se Darwin comprovou a sobrevivência e adaptação do mais forte, porque não haveria de existir uma espécie de cornos altamente evoluídos? E por que eu, aos dez anos de idade, não poderia ter um em casa para jogar Nintendo?

A afirmativa de que os valores econômicos e genéticos impediriam a realização destes pedidos é absurda. Todos sabem que Papai Noel é filantropo multibilionário, graças a inúmeras jogadas especulativas de sucesso nos anos 20 do século passado. Iniciativas que lhe passaram em branco e que, infelizmente, causaram a quebra de alguns países. Jesus, como Seu filho, tem capacidades infinitas. Há rumores infundados de que ambos não existam, afirmação de causar risos, graças as inúmeras comprovações em áudio e vídeo. Basta ver as propagandas de M&Ms e aquele livro escrito pelos 12 assessores de imagem contratados pelo Senhor, que contam em detalhes várias histórias interessantes, mas um pouco desgastadas, de milagres e ceias regadas à pão e vinho.

Minha proposta é de renovação total. Se minha opinião for de alguma valia, sugiro que Freud assuma o cargo e a alcunha de Bom Sig e faça a análise e distribuição dos brinquedos. Apesar desta medida causar um impacto significativo nas receitas da indústria farmacêutica, já que o mundo será muito mais feliz, garanto que a expectativa de vida de Seus fiéis aumentará consideravelmente, o que implicará em dízimos de longo prazo.

Certo de meu apelo fará eco em seus ouvidos milenares, fico à disposição para um troca de ideias e esclarecimentos.

Cordialmente,

Ivan Scarpelli

PS: Imagino que o Senhor saiba o motivo, mas peço que não me pergunte diretamente sobre os motivos que me levaram a pedir por uma mulher barbada.

 

Bloqueio criativo

13/07/2011
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Chiados

23/06/2011

(Legenda): (Fast and Forward)

Meu pai era uma cara com discos. Muitos discos, tantos que para quem tinha uns 10 anos, aquilo tudo era algo sem fim. Eu costumava olhar para o alto da estante, esticar a mão, veja só, para tentar alcançar a última prateleira de vinis. Por problemas hormonais, tenho a impressão que só consegui fazer isso com cerca de 13 anos. E ainda com o auxílio de uma cadeira. Mas também não posso culpar a genética, não posso culpar o que meu pai e minha mãe fizeram entre si, porque eventualmente isso me pôs no mundo. Porque, no final, os dois são baixinhos e na média eu me saí bem quando o assunto é altura.

Mas eu não fiquei tão alto quanto aqueles discos, nem tão alto quanto o volume das músicas que eu escutava com o meu pai. E também não me tornei um cara tão forte, como eram os meninos que jogavam futebol na escola. Eu não era, ainda, particularmente brilhante como os outros que faziam chover fórmulas na aula de química e, eventualmente, provocavam explosões nos corredores. Pra ser sincero, gostava de ver coisas irem para o ar, mas nunca tomei parte nisso. Bem queria, mas nunca fui chamado pra isso. Em contrapartida, nunca fui incomodado. Eu era, como ainda sou, um cara normal. Tinha até uma namorada, que eventualmente me trocou por um outro cara mais alto. O nome dele era Saulo e eu vi os dois se beijarem na minha frente várias e várias vezes. A primeira vez, em particular, foi um dia depois que ela me dispensou. Eu gostava mesmo dela, não tinha nada contra o Saulo – mas aprendi a ter depois disso.  Minha opinião na época é a de que se alguém tem um nome inspirado em uma pessoa que diz ter escutado Jesus, essa pessoa não regula muito bem. Ainda hoje concordo com essa posição e acrescento uma explicação plausível para quem ouve vozes: ela sofre de esquizofrenia.

Assim como Jesus, eu tinha cabelos, cabelos compridos. Não era divino, claro, nem andava pelas águas, apesar de ter tido algumas experiências com drogas na época que me levaram a crer que isso até seria possível.  Não tinha cabelos enormes, como um desses caras que  gostavam de heavy metal, mas era assim que eu (achava, pelo menos) podia ser diferente dos outros. De qualquer forma, o que eu curtia eram os ingleses da época. Gostava do que chamaram de britpop e via muita semelhança entre 0 13, do Blur, com discos do Pink Floyd. Meu pai concordava e gostava. Meu pai era também um adolescente de quase 50 anos, com experiência em música. Ele sabia prever todos os singles das bandas novas e o quanto as músicas fariam sucesso. Ele não achava que o 13 faria muito sucesso, mas sabia que o álbum era bom. Ele sabia que o Hurricane #1 não teria muito futuro e deixava isso claro. E foi preciso nisso.

Quando o Radiohead lançou o OK Computer, em 1997, ele não entendeu o que era aquilo. Então a gente meio que se separou ali. Porque havia coisas que não poderiam ser mais compartilhadas entre nós. Ele gostava de Emerson, Lake & Palmer. Eu tinha 16 anos e todo o mundo ao meu redor, fora a vontade de nunca mais ver o Saulo na minha frente. Eu fui trocado por um sujeito mais alto e ela, a minha ex-namorada, engravidou dele àquela altura. Diz que o menino que nasceu é alto pra idade, pra minha insatisfação. Enquanto isso, meu pai sentava e fumava cigarros e eu estava decidido a descobrir outras coisas. Era uma lógica de Alice no País das Maravilhas, quase estoica: eu não sabia para onde ir, portanto, qualquer caminho me levaria até lá. E quando saí da minha cidade e fui para outra, meu velho começou a ficar surdo. As palavras dele começaram a ficar mais altas do que a estante de vinis. Eu já não podia alcançá-las mais, mesmo com um banquinho. Lá do alto, o efeito era o contrário do esperado: elas ficaram rarefeitas.

Eu ainda não compreendi a lógica do sentido entre nós. Da parte dele, pode ser que o meu velho ainda procure entender o que aquele disco tinha de tão interessante. Ou talvez só queira ouvir a si mesmo. Ou pode ser que ele não queira ouvir mais nada. Ele fez 61 anos e não nos falamos desde que os vinis saíram da sala e foram para um depósito no fundo da casa. Quanto a mim, não tenho respostas. Tenho só um voto que não cumpri esse ano e que quero abrir aqui: os parabéns ao meu pai por outro aniversário em que estivemos ausentes um do outro.

O triângulo impossível

27/05/2011


 (Legenda): (“Então, basicamente, o que preciso fazer é deixar o cara um pouco confuso e pronto”)

E se meu lado feminino fosse, de repente, a Sasha Grey. Sasha Grey, a atriz pornô. E o masculino, Sergei  Rachmaninoff. Ele mesmo, o maestro. Prevejo conflitos, porque, em primeiro lugar, o que conta aqui é o meu desejo em ser um homem de respeito. Eu sou um cara conservador, em essência. O ponto é: quero chegar aos 60 anos e fazer piadas com o cachimbo que eu comprarei aos 50. Quem me perguntar o motivo de um vício tão horrível, ouvirá como resposta: “isso não é um cachimbo”. Piadas intelectualizadas: só pessoas com experiência, elegância e respeitabilidade podem fazer. Advogados em geral estão mais aptos em exercê-las. Outras profissões menos nobres, como designers e desenhistas industriais, não. Os designers e desenhistas industriais projetam cadeiras para advogados, daí que se conclui o lugar de cada um no mundo.

Nada disso seria possível com uma atriz pornô como minha anima, no jargão junguiano. O meu lado feminino agiria de maneira muito agressiva sobre mim, e eu não conseguiria lidar com tal pressão. Iriam me chamar de mulherzinha. Eu, com o Sergei Rachmaninoff na escalação do meu inconsciente, não poderia ser tratado dessa forma. O ponto seria descobrir como reagir frente a uma ameaça feminina de quase um metro e setenta e mais de 135 filmes realizados nas mais estranhas posições. O máximo de audácia que o meu lado masculino teria seria o casamento com uma prima, o que lhe causou alguns problemas com a Igreja Ortodoxa em vida. Isso, comparado a mulheres que vão para cama em posições anti-naturais, é nada. Já foi dito há muito tempo pelo clero que o bom mesmo é ir para a cama com um lençol recortado na região pélvica e, daí por diante, realizar o que deve ser realizado. Na dúvida - e também na ausência de uma tesoura para peças de cama intactas - o melhor é desligar a luz, rezar um pai- nosso e dormir. Todo homem de valor faria isso, mas não um com um inconsciente maniqueísta cujo outro lado é uma tarada. Em resumo, por causa desse dilema poderia muito bem passear um dia no zoológico e sentir vontade de me agarrar com duas mães solteiras e um pinguim pacífico dando sopa por ali. Tenho cá para mim que o pouco de dignidade que me restaria disso tudo seria o fato de ter atacado mulheres que, mesmo desquitadas, estariam ainda aptas às relações sociais. Por outro lado, quebraria a experiência de fidelidade do pinguim, que escolhe uma parceira e a mantém durante toda sua vida. E sem dignidade, não poderia comprar meu cachimbo aos 50 anos sem pensar em temas como fixação oral e culpabilidade. Porque, claro, todos sabem o mal causado pelo fumo. E sobre a culpa, posso comentar mais um pouco. É só pensar no auto-bullying. É muito provável que por conta da presença masculina enfraquecida, Sasha Grey começasse a manipular meu corpo de forma lenta, a tal ponto que um dia eu acordasse e me desse conta que não haveria mais um pênis no meu corpo. É evidente que muito antes disso eu já teria assumido que a melhor forma de se ir ao banheiro seria a de sentar ao vaso sanitário, independente da necessidade. O lado feminino, sem dúvida, anularia minha virilidade conservadora em prol de um modelo mais liberal. Ironicamente, Sergei  Rachmaninoff ficaria preso a seu passado de glórias musicais e não me ajudaria em nada, enquanto a atriz pornô em mim promoveria concursos de garotas da camiseta molhada ao som do Concerto para Piano número 3. Essa é a forma do inconsciente demonstrar gratidão pela escolha de uma sombra feminina tão expressiva.

Personalidade, infelizmente, não se compra em supermercados, muito menos em antiquários, se alguém eventualmente considerasse  adquirir uma de segunda mão com lados masculinos e femininos já meio gastos. Não seria má ideia, por outro lado, escolher esse tipo de coisa. Com o aumento de consumo da população e a abundância de crédito no  mercado, muitas empresas faturariam alto com isso. Verdade que a pirataria seria comum, com kit-almas de procedência demoníaca, por exemplo. Compre um e libere o Belzebu em você.  Também não dá para garantir a emissão de certificados InMetro no teste do inconsciente, apesar de desconfiar que isso ocorre por conta de um conchavo entre eles e a indústria de antidepressivos. E, claro, ainda não foi criada a Delegacia do Bem Estar Psicológico, voltada para o registro de crimes contra a natureza psíquica. Por isso o mundo precisa mais de advogados e menos desenhistas industriais. O mundo já está cheio de cadeiras. Agora, se um dia precisar reaver meu pênis, seria bom ter um  representante da lei ao meu lado. Infelizmente, teria que processar a Sasha Grey, ou seja, a mim mesmo, e perder uma grana com isso. Fora a possibilidade de ter que pagar indenização, que também sairia do meu bolso.  Com tudo tão fora de controle, a última alternativa seria aceitar os convites recebidos para estrelar produções pornográficas. Veja como a vida seria irônica. E eu sou um homem de família e conservador, acima de tudo. Bom, talvez se a produção fosse de bom gosto. Quem é que sabe.

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