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Chiados

23/06/2011

(Legenda): (Fast and Forward)

Meu pai era uma cara com discos. Muitos discos, tantos que para quem tinha uns 10 anos, aquilo tudo era algo sem fim. Eu costumava olhar para o alto da estante, esticar a mão, veja só, para tentar alcançar a última prateleira de vinis. Por problemas hormonais, tenho a impressão que só consegui fazer isso com cerca de 13 anos. E ainda com o auxílio de uma cadeira. Mas também não posso culpar a genética, não posso culpar o que meu pai e minha mãe fizeram entre si, porque eventualmente isso me pôs no mundo. Porque, no final, os dois são baixinhos e na média eu me saí bem quando o assunto é altura.

Mas eu não fiquei tão alto quanto aqueles discos, nem tão alto quanto o volume das músicas que eu escutava com o meu pai. E também não me tornei um cara tão forte, como eram os meninos que jogavam futebol na escola. Eu não era, ainda, particularmente brilhante como os outros que faziam chover fórmulas na aula de química e, eventualmente, provocavam explosões nos corredores. Pra ser sincero, gostava de ver coisas irem para o ar, mas nunca tomei parte nisso. Bem queria, mas nunca fui chamado pra isso. Em contrapartida, nunca fui incomodado. Eu era, como ainda sou, um cara normal. Tinha até uma namorada, que eventualmente me trocou por um outro cara mais alto. O nome dele era Saulo e eu vi os dois se beijarem na minha frente várias e várias vezes. A primeira vez, em particular, foi um dia depois que ela me dispensou. Eu gostava mesmo dela, não tinha nada contra o Saulo – mas aprendi a ter depois disso.  Minha opinião na época é a de que se alguém tem um nome inspirado em uma pessoa que diz ter escutado Jesus, essa pessoa não regula muito bem. Ainda hoje concordo com essa posição e acrescento uma explicação plausível para quem ouve vozes: ela sofre de esquizofrenia.

Assim como Jesus, eu tinha cabelos, cabelos compridos. Não era divino, claro, nem andava pelas águas, apesar de ter tido algumas experiências com drogas na época que me levaram a crer que isso até seria possível.  Não tinha cabelos enormes, como um desses caras que  gostavam de heavy metal, mas era assim que eu (achava, pelo menos) podia ser diferente dos outros. De qualquer forma, o que eu curtia eram os ingleses da época. Gostava do que chamaram de britpop e via muita semelhança entre 0 13, do Blur, com discos do Pink Floyd. Meu pai concordava e gostava. Meu pai era também um adolescente de quase 50 anos, com experiência em música. Ele sabia prever todos os singles das bandas novas e o quanto as músicas fariam sucesso. Ele não achava que o 13 faria muito sucesso, mas sabia que o álbum era bom. Ele sabia que o Hurricane #1 não teria muito futuro e deixava isso claro. E foi preciso nisso.

Quando o Radiohead lançou o OK Computer, em 1997, ele não entendeu o que era aquilo. Então a gente meio que se separou ali. Porque havia coisas que não poderiam ser mais compartilhadas entre nós. Ele gostava de Emerson, Lake & Palmer. Eu tinha 16 anos e todo o mundo ao meu redor, fora a vontade de nunca mais ver o Saulo na minha frente. Eu fui trocado por um sujeito mais alto e ela, a minha ex-namorada, engravidou dele àquela altura. Diz que o menino que nasceu é alto pra idade, pra minha insatisfação. Enquanto isso, meu pai sentava e fumava cigarros e eu estava decidido a descobrir outras coisas. Era uma lógica de Alice no País das Maravilhas, quase estoica: eu não sabia para onde ir, portanto, qualquer caminho me levaria até lá. E quando saí da minha cidade e fui para outra, meu velho começou a ficar surdo. As palavras dele começaram a ficar mais altas do que a estante de vinis. Eu já não podia alcançá-las mais, mesmo com um banquinho. Lá do alto, o efeito era o contrário do esperado: elas ficaram rarefeitas.

Eu ainda não compreendi a lógica do sentido entre nós. Da parte dele, pode ser que o meu velho ainda procure entender o que aquele disco tinha de tão interessante. Ou talvez só queira ouvir a si mesmo. Ou pode ser que ele não queira ouvir mais nada. Ele fez 61 anos e não nos falamos desde que os vinis saíram da sala e foram para um depósito no fundo da casa. Quanto a mim, não tenho respostas. Tenho só um voto que não cumpri esse ano e que quero abrir aqui: os parabéns ao meu pai por outro aniversário em que estivemos ausentes um do outro.

Um Comentário leave one →
  1. 10/07/2011 12:21 am

    todos sentem falta da presença do ivan cá no chocolat. : )

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